Nem sempre o sucesso vem de uma boa idéia




Não sei quantas vezes já ouvi alguém dizendo: "Eu adoraria montar uma empresa, mas não tenho nenhuma grande idéia." Minha resposta: os fundadores da Sony, Hewlett-Packard, Mariott, Motorola, Honda, Disney, Wal-Mart, Nordstron, Merck ou Procter & Gamble também não tinham. Mas isso não os impediram de começar. Se tivessem esperado até ter a grande idéia, desconfio que essas empresas não existiriam hoje.

Caso você esteja esperando que uma grande idéia - ou mesmo uma boa idéia - lhe venha como um raio antes de dedicar-se a montar a sua empresa, vai ficar aguardando um longo tempo. Mas acredite, eu nem sempre pensei dessa maneira.

Paul Galvin começou consertando e depois fabricando eliminadores de pilhas para rádio da Scars. Galvin era movido pela ambição de trabalhar por conta própria e de transformar o seu "rebento" - um empreendimento de cinco pessoas - numa empresa grande e de vida longa. Foi desses primórdios humildes que surgiu a Motorola Inc.

J. Willard Marriott queria criar uma organização de sucesso que pudesse transformar numa verdadeira instituição. O jovem missionário montou a sua empresa, a Marriott Corp, de hoje, a partir de uma barraca de refrigerantes A&W em Washington, D.C.

Em 1946, Soichiro Honda fundou o Instituto de Pesquisas Técnicas Honda, que seria mais tarde conhecida como Honda Motor Co. Mas somente em 1948, depois de dois anos mexendo com motores, é que ele criou a primeira motocicleta Honda.

Mesmo o legendário Sam Walton, da Wal-Mart Stores Inc., começou apenas com o desejo de trabalhar por conta própria e um certo conhecimento de varejo. Ele iniciou-se como um simples comerciante de quinquilharias, esbarrando no conceito de loja de descontos em regiões rurais não porque teve uma grande idéia, mas porque sua esposa determinara que a família Walton não viveria em cidades de mais de 10 mil habitantes.

A Nordstron, Inc. começou como uma única loja de sapatos no centro de Scattle; a Merck & Co. como uma filial de vendas de uma empresa química alemã; a Procter & Gamble como uma fabricante de sabões e velas. Essas dificilmente podem ser consideradas grandes idéias.

Talvez ainda mais surpreendente, os primeiros negócios de muitas das melhores empresas de hoje foram fracassos. O primeiro produto da Sony - um fogareiro para cozinhar arroz - não funcionava muito bem e o seu primeiro produto, de fato marcante - um gravador -, atolou no mercado. A empresa sobreviveu nos primeiros tempos costurando fios em tecidos para criar almofadas elétricas de aquecimento.

Não me interpretem mal. Não estou afirmando que todas as empresas bem-sucedidas começaram sem uma grande idéia. Por certo, a lâmpada elétrica de Edison, a gênese da General Electric Co., foi uma grande idéia. E o fato de Ray Kroc reconhecer o potencial do restaurante dos irmãos McDonald foi um tremendo ponto de partida. O mesmo é verdade para o computador pessoal de Stephen Wozniak e Steve Jobs, o Apple I. Mas poucas pessoas conseguem progredir com idéias fundadoras tão estupendas.

"A sorte favorece aqueles que persistem." Essa simples verdade é a pedra angular de todos os fundadores de empresas bem-sucedidas. Mas persistir em quê? Os criadores de empresas extraordinárias são claros: deve-se estar preparado para matar uma idéia se for preciso, mas nunca se deve desistir da empresa. Se uma idéia fracassar, tente outra. Considere que, em última análise, o verdadeiro produto da empresa é ela própria. Como opera e o que representa.

Se você equivaler o sucesso de sua empresa ao sucesso de uma idéia específica - como fazem muitos entrepreneurs -, então é mais provável que acabe desistindo caso essa idéia fracasse. E se a idéia for sucesso, aumentam as chances de você apaixonar-se e ater-se a ela tempo demais, ao invés de partir para outras coisas. Todas as idéias de produtos, por melhores que sejam, acabam se tornando obsoletas. Mas uma grande empresa cheia de vitalidade nunca se tornará absoleta se tiver a capacidade organizacional de evoluir continuamente para além da vida dos produtos existentes.

O que sobressai nesses grandes criadores de empresas é sua concentração obsessiva em acertar consistentemente os menores detalhes. Não é preciso ter uma grande idéia se você puder executá-la melhor do que ninguém. Também fico impressionado com o quanto eles mantiveram seus valores essenciais constantes ao mesmo tempo em que vigorosamente adaptavam as suas estratégias e táticas para enfrentarem os desafios de um mundo em constantes transformações. Mas acho que a lição mais importante para possíveis fundadores de empresas é poderem livrar-se da tirania da necessidade de uma grande idéia.

James Collins é autor de Beyond Entrepreneurship e Built to Last: Successful Habits of Visionary Companies

 

 



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